segunda-feira, 22 de junho de 2009

Redes digitais na educação: a escola na modernidade

intro-informatica

MARIA LUCIA SOARES MARTINS

I _ INTRODUÇÃO


Temos sido testemunhas de uma gradual evolução das tecnologias da informação durante décadas. A evolução tecnológica tem sido rápida e surpreendente, gerando novas formas de pensar e de se relacionar com os objetos do conhecimento. Nesse mundo digitalizado e globalizado, através das telecomunicações e da informática, a técnica torna-se uma das dimensões fundamentais da transformação do mundo humano pelo próprio homem.

A velocidade com que a informação percorre distâncias na atualidade é impressionante. Uma guerra, como a que temos presenciado hoje, pode ser acompanhada pela televisão e podemos simplesmente trocar de canal sem nos importarmos muito com o que está acontecendo.

Hoje, na internet, não há mais diferença geográfica e de tempo. Há o aqui e agora. O tempo é on-line. A internet, que teve sua origem no resultado de pesquisa militar norte-americana na década de 60, expandiu-se e hoje é uma imensa rede de redes de computadores ligados entre si e que trocam informações a uma velocidade surpreendente.

A comunicação, portanto, seria um novo paradigma que se impõe, penetra e modela os campos sociais da sociedade contemporânea. A simples utilização dos meios de comunicação de massa que surgem não responde às questões do fenômeno da comunicação. A utilização simples e pura da técnica não pode ser o papel da escola. É necessário que a técnica se transforme em fundamento.

O mundo que hoje surge constitui ao mesmo tempo um desafio ao mundo da educação e uma oportunidade. É um desafio porque o universo de conhecimentos está sendo revolucionado tão profundamente que ninguém vai sequer perguntar à educação se ela quer se atualizar. A mudança é uma questão de sobrevivência.

A oportunidade surge na medida em que o conhecimento, matéria prima da educação, está se tornando o recurso estratégico do desenvolvimento moderno.

Ao mesmo tempo que a educação se torna um instrumento estratégico da reprodução social, surgem as tecnologias que permitem dar um grande salto nas formas, organização e conteúdo da educação. Informática, multimídia, telecomunicações, banco de dados, vídeos e tantos outros elementos se generalizam rapidamente.

Vislumbramos, portanto, um conceito de educação que se abre para um enfoque mais amplo: já não basta trabalhar com simples propostas de modernização da educação. Trata-se de repensar a metodologia do tratamento do conhecimento no seu sentido mais amplo e as novas funções do educador como mediador deste processo.

A resistência a mudanças são fortes. Como as novas tecnologias surgem normalmente através dos países ricos e, em seguida, através dos segmentos ricos de nossa sociedade, temos uma tendência natural para identificá-las como resultado dos interesses dos grupos econômicos dominantes. Na verdade, inicialmente servem a esses interesses. No entanto, uma atitude defensiva frente às novas tecnologias terminará por acuar-nos, colocando-nos em posições em que os segmentos mais retrógrados da sociedade se apresentarão como os verdadeiros bastiões da modernidade.

Não se trata de entupir as escolas de computadores. A simples informatização leva apenas à facilitação para fazermos as mesmas bobagens, só que em volume maior e com mais rapidez.
Não é só a educação que se defronta com novas tecnologias. Estas mesmas tecnologias impactam o universo social e geram novas dinâmicas, onde o conhecimento torna-se o ator principal.

II – DESENVOLVIMENTO

Dentre as transformações que atingem as sociedades contemporâneas, três grandes fatores merecem ser destacados pelas repercussões que trazem para a educação:

Aceleração do ritmo de surgimento e renovação dos saberes, gerando permanente necessidade de atualização dos indivíduos e do grupo de trabalho;

Necessidade de novos perfis de competência, como saber buscar/processar/transferir informações e produzir conhecimentos nos contextos produtivos de trabalho;

Surgimento de comunidades virtuais com implicações significativas nos modos de pensar, trabalhar e se relacionar, devido ao crescimento acelerado de redes interconectadas de informação e de usuários da comunicação informatizada.

As formas convencionais de educação, baseada na sala de aula presencial estão se revelando insuficientes para as necessidades que se fazem presentes, principalmente no que se refere às capacitações e atualizações profissionais. Tem sido indispensável propiciar novas formas mais flexíveis e acessíveis para a aprendizagem. O uso das redes digitais conectadas – Internet, Intranet e Extranet – abrem as portas para esta nova perspectiva da educação.

Com a utilização das redes digitais produz-se a manifestação de um grande movimento tecnológico em que dados, imagens, sons e mensagens são digitalizados. Cria-se então, cada vez mais expandindo-se, um “ciberespaço” propiciando um número cada vez maior de interações entre as pessoas que podem Ter acesso e trocar informações de todo o tipo, constituindo comunidades virtuais com os mais distintos objetivos.
Junto a isso, a tecnologia das redes modifica também os conceitos de tempo e espaço, na medida em que possibilita que várias pessoas, situadas em diferentes lugares, possam trabalhar juntas, trocar informações, aprender e ensinar.

O que poderíamos chamar de “educação virtual” não representa somente a possibilidade de levar a aprendizagem até onde as pessoas se encontram. Este potencial de inovação proporcionado pelas redes digitais aponta para a renovação de práticas pedagógicas que permitem o intercâmbio e o acesso a parceiros externos, a especialistas e a inúmeras fontes de informação. Favorecem a troca e a eliminação de barreiras entre os diferentes campos de saber, estabelecendo relações entre os campos de pesquisa e de conhecimento.

Sem dúvida a educação enfrenta, nos dias de hoje, novos desafios: exigência de adoção de metodologias de aprendizagem/ensino que possibilitem o desenvolvimento de novas competência. Embora não sendo a única maneira de renovar estas metodologias, as redes digitais possibilitam a criação de condições bastante propícias para uma pedagogia ativa. Através das redes digitais, a troca entre os educadores e os educandos e educandos entre si é facilitada e ampliada. O processo educativo torna-se um espaço de interação real onde se pode compartilhar idéias, informações e soluções de problemas.

O principal papel do educador torna-se o de incentivar, orientar e participar ativamente do processo interativo de troca.
Assim, poderíamos resumir as potencialidades do uso das redes digitais na educação nos itens que se seguem:

flexibilidade de tempo e de espaço no processo ensino/aprendizagem;

aproximação entre pessoas com interesses e objetivos comuns, mesmo que separadas geograficamente;

grande nível de interação entre as pessoas, através do uso da comunicação síncrona ou assíncrona, com possibilidade de maior participação das pessoas envolvidas;

criação de ambientes virtuais apropriados para o trabalho de forma cooperativa (sites e softwares educativos);

constituição de comunidades virtuais de aprendizagem;

estabelecimento de condições que facilitam a adoção de uma pedagogia ativa.

Além disso, materiais didáticos podem ser facilmente modificados ou reutilizados, links relevantes para o processo ensino/aprendizagem podem ser criados, possibilitando o enriquecimento e melhoria da qualidade da educação.

Vale acrescentar também que o uso conjugado de diversas mídias (texto, imagem e som) gera a eficiência pedagógica, esclarecendo que todo o potencial das redes digitais para a melhoria da qualidade da aprendizagem pode ser mobilizado tanto para a educação virtual quanto para a educação presencial.


III – CONCLUSÃO

Trabalhar, hoje, significa cada vez mais ser capaz de saber buscar/processar/transmitir informações e gerar conhecimentos. O domínio da tecnologia de redes será no futuro uma competência tão básica quanto é hoje a capacidade de escrever, ler ou calcular.

O uso das redes digitais para fins educacionais, além da oferta de educação virtual, pode contribuir para melhorar o ensino presencial. Pelo próprio potencial das redes, principalmente da internet, como fonte de pesquisa e informação, educadores e educandos passam a dispor de poderosa ferramenta para a melhoria da qualidade da aprendizagem.

O estímulo à pesquisa e à busca de informação contribui para o desenvolvimento da capacidade de aprendizado ao longo da vida, fundamental numa sociedade onde o conhecimento adquire centralidade. Nesta sociedade o conhecimento deixa de ser um “produto final” para constituir-se em um meio para a construção de novos conhecimentos.

Do outro lado do problema, os professores precisam preparar os alunos para trabalhar com um universo tecnológico no qual ainda são principiantes. Mudam as tecnologias, mas também muda o mundo que deve ser estudado e, conseqüentemente, precisam mudar as formas de ensino.

Não é preciso ser nenhum “deslumbrado digital” para constatar que o movimento transformador que atinge hoje a informação, a comunicação e a própria educação constitui-se numa profunda revolução tecnológica. Este potencial pode, a princípio, ser visto como fator de desequilíbrio, reforçando as ilhas de excelência destinadas a grupos privilegiados. Mas pode também constituir-se numa poderosa alavanca de promoção e resgate da cidadania de uma grande massa de marginalizados, criando em toda sua amplitude, uma autêntica revolução científica e cultural.

É preciso trabalhar de forma séria para perceber que as novas tecnologias podem representar dois lados diretralmente opostos: podem servir para a elitização e para o aprofundamento das contradições sociais ou gerar, através da democratização do conhecimento, uma sociedade mais justa e mais equilibrada.

Nesta rearticulação da sociedade e frente ao novo papel do conhecimento para o nosso cotidiano, as estruturas de ensino devem evoluir para um papel mais de organizadora de espaços culturais e científicos, avançando para além do papel de “lecionadora de conteúdos”.

É preciso inverter a dinâmica de uma educação que hoje se constitui em um fator de reforço das desigualdades. Não basta somente introduzir as novas tecnologias e o conjunto de transformação que disto decorre, mas também assegurar que as transformações sejam fontes de oportunidades.
Repensar de forma mais dinâmica e com novos olhos a questão do universo de conhecimentos a trabalhar será necessário. Ninguém mais pode aprender tudo. Nesta imensa rede de vasos comunicantes e interativos, as metodologias, o aprender a “navegar” adquirem maior importância, reduzindo-se o valor dado ao acúmulo de conhecimentos a transmitir.

Longe de tentar ignorar as transformações ou de atuar de forma defensiva frente ao uso das redes digitais na educação, é preciso aprofunda-se nelas para entender sob que forma os seus efeitos podem levar a um processo equilibrador da sociedade, deixando de reforçar o que hoje se apresenta.
Pode-se ser a favor ou contra as redes digitais e o seu uso na educação – ainda que ninguém esteja querendo saber quem é contra ou a favor – mas não é possível não permitir que delas não se tenha um conhecimento competente.

A escola do futuro tem que realizar a promessa de se fazer moderna, ou seja, integrar-se ao universo da cultura, significando escola para todos com qualidade, do ponto de vista da construção do conhecimento, agregando dois campos culturais: a educação e a comunicação.

O campo da educação enfrenta, pois, mais este desafio: o de constituir-se em espaço de mediação entre a criança, jovem ou adulto e esse meio ambiente “tecnificado” e povoado de máquinas que lidam com a mente e o imaginário. Cabe às instituições educacionais não só assegurar a democratização do acesso às redes digitais, mas ir além e dar condições, preparando as novas gerações para a apropriação ativa e crítica dessas novas tecnologias.

O importante é mudar o modelo de educação para que as tecnologias sirvam como apoio para maior intercâmbio, trocas pessoais, em situações virtuais ou presenciais. A questão mais do que simplesmente tecnológica é comunicacional. A educação – como um processo integral que ocupa a vida toda – deve proporcionar a construção do conhecimento e servir de elo para uma maior compreensão da vida, de maneira que o indivíduo possa encontrar novas formas de viver e desenvolver suas capacidades. A utilização das redes digitais permite fazer esta ponte, trazendo os conteúdos de forma mais ágil e devolvendo-os ao cotidiano, possibilitando a interação entre alunos, colegas e professores.

“Não confunda jamais conhecimento com sabedoria. Um o ajuda a ganhar a vida; o outro a construir uma vida.”